terça-feira, 21 de novembro de 2006

"Estorias do Afogado"


Hoje pela manha estive com um grupo de jovens de uma escola, uma turma que me convidou pra falar com eles a respeito de religião, assunto duro... pelo menos às vezes, passeamos pelo cristianismo, uma visita pela historia da igreja de Roma, muitos questionamentos, muita visão diferente, foi então que decidi contar-lhes uma historia, originalmente foi contada por Gabriel Garcia Marques, bom escritor, mas na verdade escutei de outro, o Rubem Alves, poeta, um teopoeta, e é essa historia que gostaria de compartilhar com vocês, “A historia do Afogado”:

Numa dessas praias gostosas, perdidas num desses litorais de paises como o Brasil, paradisíacos, havia uma aldeia, e como quase todas as aldeias em beira de praia, eles viviam da pesca, uma aldeia de pescadores. Eles viviam uma rotina muito comum a ambiente como este, acordar cedo, madrugada, ir pescar, voltar, vender, criar uma família nesse estilo, quase meio que um piloto automático, muito raro alguma coisa quebrava a rotina deles, sempre o mesmo, nada novo.

Mas a vida daquela aldeia não estava destinada a viver sempre daquela forma, tudo aconteceu numa manha que parecia igual a qualquer outra manha, os homens saíram para pescar, suas mulheres ficaram preparando a comida, e perto da hora deles chegarem suas crianças começaram a brincar perto da praia enquanto esperavam seus pais, até que no meio da brincadeira uma das crianças avista algo estranho, uma coisa meio sem forma boiando no mar, ainda tava longe, não dava pra saber o que era, correram pra perto, e esperaram até que a maré trouxe para perto, e todos se espantaram quando perceberam que o que boiava era um corpo, um homem que havia se afogado, chamaram seus pais, eles olharam e pensaram o que fazer, mas só existe uma coisa a se fazer com um corpo morto, enterrar, e foi o que fizeram.

Naquela aldeia eles tinham um ritual muito próprio para enterrar seus mortos, as mulheres entravam com o corpo em uma sala e os homens ficavam do lado de fora enquanto elas preparavam o defunto, e foi o que fizeram com o afogado, levaram para sala, e os homens ficaram do lado de fora da casa, mas ai começaram a sentir algo estranho, diferente dos outros enterros que já haviam feito naquela aldeia, que eram sempre regados de muita conversa e lembranças sobre o morto, naquele pairava o silencio, nada tinham a falara a respeito daquele homem, não o conheciam, não tinha lembranças, então todos ficaram calados, os homens sentados do lado de fora, e as mulheres preparando o corpo em silencio dentro da sala, até que o silencio se quebra, uma das mulheres, olhando para o nada-tudo comenta com as outras: “Ele era tão alto, imagino que para entrar em qualquer uma de nossas casas ele precisasse se abaixar” as outras mulheres deram um sorriso tímido e continuaram o trabalho, então outra comenta também, “suas mãos eram tão fortes, mas ao mesmo tempo muito delicadas, como seria o seu abraço? Creio que muito gostoso, todas riram”, então outra empolgada com a conversa, após fitar com profundidade seu rosto comenta, “como seria sua voz? Forte? suave? Será que ele sabia dizer as palavras que quando ditas fazem com que uma mulher apanhe uma flor e ponha no cabelo?”, e todas riram novamente, os homens escutando aquelas risadas começam a achar estranho, como num momento desses elas conseguem rir, então resolvem olhar pela janela e escutar o assunto, quando percebem do que se trata, eles começaram a comentar aquela cena, e por incrível que pareça com um certo ciúme de suas mulheres, e daí começam a criar suas próprias historias do afogado, questionam sobre sua profissão, suas historias e muitas outras, o homem morto começa a dar vida a vida daquela aldeia.

Depois do enterro, naquela noite, todos se juntaram ao redor da fogueira e começaram a conversar e contar estórias sobre o afogado, cada um tinha sua estória, colocava pra fora sua imaginação, e depois daquele dia ninguém na aldeia foi o mesmo, sempre se reuniam e começavam a contar estórias sobre o afogado, também a rotina deles mudou, as mulheres começaram a colocar seus sonhos e desejos pra fora, os homens sempre tentavam superar aquele super-homem, e assim eles foram, aquele morto trouxe vida aquele povo, trouxe sonhos, mudou a estória daquela aldeia e naquele momento o afogado ressuscitou na vida de cada um deles.

Muitos anos se passaram desde aquele episodio, mas as estórias continuaram, os mais jovens se sentavam aos pés dos mais velhos e ao redor da fogueira escutavam aquelas lindas estórias sobre o afogado, e assim aquela aldeia seguiu.

Depois de algum tempo alguns começaram a ficar com medo de que as estórias do afogado se perdessem e começaram a organiza-las em livros, fizeram uma reunião oficial pra contarem suas estórias, decidiram algumas pessoas escolhidas e ordenadas para isso, criaram uma organização, detentora das estórias oficiais do afogado, a “igreja do afogado”.

Alguns não gostaram daquilo, e continuaram a sentar e viver as estórias do afogado da forma antiga, despertando seus sonhos do jeito que eles vinham, não foram bem vindos pela igreja do afogado, praticamente excomungados, mas não deixaram que aquilo mexesse com o que eles acreditavam, o afogado sempre iria muito mais do que lhes dar uma religião, iria lhes dar sonhos, iria lhes dar vida.

Ai termina a estória do afogado, mas ai é que começa a nossa, precisamos não simplesmente sentar e engolir as estórias que outros escreveram, precisamos sentir e escrever nossos sonhos, o afogado não trouxe nada novo, despertou o gigante adormecido dentro daquelas pessoas, e é isso que ele quer fazer conosco, seja qual for o seu afogado.

“SONHEM, VIVAM, CONTEM E ESCREVAM ESTORIA, A SUA ESTORIA!”


Com carinho,

Clarence Santos

6 comentários:

Anônimo disse...

Bela demais!

Anônimo disse...

Interessantissimas suas mensagens...! Vc parece andar como alguns profetas do antigo testamento!!

claudinha disse...

Estou "ENCANTADA"
Você escreve muito bem,
Você é muito do bem!!!
Que pessoa tão linda é você!!

Bjo gde...

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