terça-feira, 30 de janeiro de 2007

“QUERO APRENDER A DESAPRENDER”

Hoje estava comentando que às vezes preferia não saber tanto a respeito das coisas que gosto, principalmente no que diz respeito à fé, queria não conhecer tanto, não ter me aprofundado tanto, existem coisas que a gente não devia saber, apenas sentir, tem assuntos que não devem invadir a cabeça da gente, apenas o coração, o mundo dos sentidos e não do saber. O que me faz lembrar de minhas aulas de biologia no colégio agrícola, era um colégio muito bom, nossas aulas não se davam apenas no teórico, mas também no pratico, tínhamos laboratórios onde realizávamos nossas experiências, e pensando a respeito do assunto que comecei, lembrei de uma de nossas aulas onde estávamos estudando o organismo dos anfíbios, utilizamos para isso um sapo, cada grupo teve acesso ao cadáver de um, abrimos, estudamos, olhamos cada coisa, alguns com uma curiosidade tremenda, outros, principalmente algumas garotas, com um nojo terrível, mas surtiu efeito, aprendemos realmente muita coisa, mas ao final a grande constatação, o sapo estava morto, sabíamos quase tudo a seu respeito, mas não sabíamos como lhe devolver a vida, pobre sapo. A fé é parecida, quando mexemos demais com ela, analisamos demais, estudamos demais o que nos sobra são algumas poucas conclusões, mas perdemos o essencial, a fé viva. Por isso meu medo de ir mais a fundo.
Lembro-me também de uma estória que aprendi com Rubem Alves, é uma parábola que conta um dialogo que aconteceu entre uma centopéia e um gafanhoto:

“Conta-se que, um dia, um gafanhoto encontrou-se com uma centopéia que descansava no meio da folhagem.
- Dona Centopéia, eu tenho pela senhora a maior admiração. Deus Todo-Poderoso me deu apenas seis pernas. Para a senhora ele deu cem. Assombra-me a elegância tranqüila do seu andar. Todas se movem na ordem certa. Jamais vi uma centopéia tropeçar. Mas, por isso mesmo, tenho uma curiosidade: quando a senhora vai começar a andar, qual a perna que a senhora mexe primeiro?
- Obrigado pelos elogios, senhor Gafanhoto – respondeu a Centopéia – Sua pergunta é muito interessante porque eu mesma, até hoje, nunca pensei no assunto. Sempre andei sem pensar. Perdoe minha ignorância. Jamais fui à escola do andar certo. Não fui conscientizada. Andei sempre um andar ignorante. Mas agora vou prestar atenção...
Conta-se que desde esse dia a Centopéia ficou paralítica.”

Tem coisas que não nos é dado mexer, tem conhecimentos que como fala o poema sagrado, devem ficar apenas com o ETERNO, e é por isso que digo, às vezes queria saber menos, não quero viver a “Síndrome da centopéia”, quero ser livre para andar, mesmo sem saber como o fiz. Quando olho alguns cientistas ao meu redor, homens e mulheres do conhecimento percebo a realidade disso, tantos conhecimentos guardados dentro da cabeça, e nada de vida dentro do coração, tantos títulos, mestres, doutores, honras, mas que pra vida não passam de papeis, tudo tão infantil, e quando falo infantil, não estou falando das crianças, pois as crianças é que sabem viver, estou falando de uma infantilidade mas pra adolescente, vontade de ser grande sendo criança.
Fico pensando o que nos resta diante disso tudo, qual a saída, e a única que me vem a mente é o desaprender, esquecer os meios e métodos e procurar na verdade razoes para a vida, meu amigo Rubem já dizia: “Os conhecimentos nos dão meios para viver. A sabedoria nos dá razões para viver.” E é isso que procuramos, mas onde encontrar a sabedoria? Resposta: em nós mesmos. Temos em nós tudo isso, mas os saberes nos afundam e tiram a vida de nossa fé, talvez por isso do poema de Fernando pessoa:

“O essencial é saber ver –
Mas isso (triste de nós que trazemos a alma vestida!),
Isso exige um estudo profundo,
Uma aprendizagem de desaprender...”

“Procuro despir-me do que aprendi,
Procuro esquecer-me do modo de lembrar que me ensinaram,
E raspar a tinta com que me pintaram os sentidos,
Desencaixotar as minhas emoções verdadeiras,
Deslumbrar-me e ser eu...”

E não só ele, neste coral se juntam outros grandes também como o Riobaldo, este sim homem sábio que dizia: “O corpo não translada, mas muito sabe; adivinha se não entende”. “A gente só sabe bem aquilo que não entende.” Nietzsche e Riobaldo se dariam muito bem pois eram de opiniões parecidas “O homem que está bem sabe como esquecer, para isso ele é forte o bastante, há mais razão no seu corpo que na sua melhor sabedoria”, ao que Barthes concorda. “Desaprender os saberes acumulados a fim de aprender a sabedoria não dita do corpo”.
O que procuramos conhecer não deve existir de graça, e nem a qualquer custo, o que temos deve antes de ser “sabido”, ser “saboreado”, antes de ser entendido, ser experimentado, sabedoria não é conhecer muito e se encher de saberes, sabedoria é aprender a viver.



“Os que tem saber não são sábios; os que são sábios não tem saber.”
Tão-Te-Ching,
Poema LXXXI




Com carinho,
Clarence Santos

12 comentários:

girlene disse...

é fantático como esse meu lindo amigo consegue falar, ou melhor escrever aquilo que sentimos e não sabemos descrever, ou aquilo que parecer ser tão obvio e ninguém nunca comentou!
minha admiração vai aumentando a cada texto, só lamento que nunca escrevestes nada especifico pra mim (kkkkkkkkkkkkkkkkk, começaram as cobranças), mais quem sabe um dia.
bye

Lívia disse...

Putz!!! TE AMO!!! uhaeuhaeuhaeuhaeuheauhea Mto massa o texto! =DDD
Gostei mto, mto mesmo ^^

Gessyka disse...

Clarence...
Gosto da maneira criativa, ousada e sensível dos teus textos!
Eles me fazem refletir bastante.
Taí uma de minhas reflexões... Abraços e a Paz!

"Quero aprender a desaprender."

Quero aprender a desaprender...
(...)
As palavras duras e sentenciosas
que foram proferidas por lábios hipócritas e orgulhosos - os quais se julgam 'donos da verdade'. Quero aprender a desaprender a ambição de 'ser e fazer' para ELE em prol do reconhecimento diante dos homens. Quero desaprender tudo quanto foi batizado como 'pecados mortais', desaprender a imagem de um Criador vingativo e condenador, desaprender a arte de violar a sã doutrina do Reino, desaprender a falsa caridade, a qual favorece àqueles de melhores condições e ocupações sociais. Quero aprender a desaprender as 'fórmulas mágicas' vendidas no 'super Saldão Gospel' - localizado no templo da esquina - ; desaprender a "Teoria da Perfeição" - ela defende a divisão de classes Superiores ( os impecáveis) e Inferiores (pecadores, que merecem ser queimados no fogo do inferno! - ; Quero desaprender a manipulação, alienação e tormento que um dia minha mente foi exposta por culpa de tanto conhecimento.
Talvez pudesse ser menos cética se não 'aprendesse' por demais a "verdade"... Talvez pudesse adentrar mais cedo no espetacular sobrenatural, se não tivesse aprendido a 'disciplina' e o 'bom senso', na casa de pedras, construídas pelos filhos de um deus malvado e pronto a castigar meus erros, muitas vezes, provenientes de conflitos pessoais...
Enfim, um dia conheci a VERDADE fora de templos religiosos, distante de regras... Um dia conheci a Verdade genuína, até que me ensinaram o contrário e perdi a essência dela.
Hoje estou voltando à mesma essência aprendida no meu quarto... sem visões humanas, apenas a DEle... Hoje sou mais livre, pois verdadeiramente o FILHO me libertou das "Sábias mentiras" alheias, ensinadas durante minha 'curta vida cristã'...

(...)

Dany disse...

Puxa, puxa, puxa... incrível como um cara tão jovem tem tanta sabedoria... impressionante como consegues passar reflexões tão sábias através de uma linguagem tão simples... simplismente fantástico, sem mais palavras, só tenho a dizer q cada vez te admiro mais, e com certeza não foi por acaso q Deus colocou vc em minha vida... só tenho a agradecer a Ele por isso, por ter tido a sorte dEle ter te colocado em uma daquelas minhas aulinhas... (rsrsrs) Poderia ter sido com qualquer outro professor, talvez até mais competente q eu... mas, não... foi comigo... e pq? Bem, pq num sei... só sei q Deus é sábio, e definitivamente não foi ao acaso... e desde então, nossas relações nas aulas não foram somente de professor-aluno... vc foi além disso... só espero q pra vc tb tenha sido da mesma forma...
Bem, vou parando por aki... mas antes, tenho uma msg pra vc...
Vc definitivamente é "o cara" kkkkkkkkkkk e eu posso dizer com plena convicção q amo, amo, amo vc por isso!
I hope see you soon, my dear friend! (só pra fazer um pouquinho de inveja...)
Bjs!
Dany

Anônimo disse...

Parabens pelas palavras e que Deus abençoe mais e mais. Sucesso e muitas felicidades. Deus te use para abençoar as pessoas.

Ze Carlos(Par. Bom Pastor)

Vanessa Acioly disse...

É. Isso tbm toma conta dos meus pensamentos!Sempre tive afinidade com as suas palavras, Clarence!
Quase no final lembrei de uma música..."A vida é um banquete cheio de sabores...não quero preto, nem quero branco...quero todas as cores!"
Eu tbm nunca gostei de viver preto no branco! Aprender a desaprender...

Eduardo disse...

Você é bom nisso. Seu texto, lido sob o som "http://www.youtube.com/watch?v=Ddn4MGaS3N4&mode=related&search=" (vale dar uma olhada. Depois me fala) foi o tema da minha oração dessa noite. Gostei muito da frase: “Os conhecimentos nos dão meios para viver. A sabedoria nos dá razões para viver.”. Como é bomsaber que você existe. E o melhor: eu te conheço. Deus te abençoe.

Gabriela Cordeiro de santana disse...

Muito lindo esse texto, gostei muito!!! Que Deus continue lhe abençoando e lhe guiando. Um abraço de sua ovelha- Gabriela Santana( Paróquia Bom Pastor )

Hulda disse...

Lindo demais seu texto!!!!
Parabéns Clarence que o Senhor te abençoe muito e ilumine sua mente pra que a gente possa mais e mais aprender com suas palavras!!!!!!!
Um grande beijo!!!
Hulda Alves da Rocha

Rodrigo Ferrao disse...

interessante... vc usou os principios do budismo em seu post...
amar com desapego,aprender desaprendendo....na verdade quem n esta atras da paz interior e a objetividade da mente?
n sei se uma depende da outra...mas de certo caminham juntas...
vou vim sempre neste blog!

Magna disse...

muito profundo e claro..ao mesmo tempo!
Achei fascinante o texto, retrata bem o que "é" ser ...e também o que "é" não ser...
Creio que esse é o caminho...aprender a desaprender..se soubessemos..tudo seria diferente!
bjos

Camila Mendes - indiamila@hotmail.com disse...

Tenho certeza que vc leu o livro: Variações sobre o prazer de Rubem Alves! Gosto de Rubem por que ele gosta das mesmas pessoas e coisas que eu gosto: Fernando Pessoa, Nietzche, cultivar jardins, comida mineira, piano...