sábado, 11 de agosto de 2007

“TENHO SAUDADES...”


Saudades, tenho aprendido muito com o amigo Rubem Alves sobre este tema, e muito mais com a vida, saudade tem virado muito mais que uma palavra ou sentimento para mim, tem se tornado um sacramento, visível em todos os outros e sempre necessária, na discursão que vemos escrita no banquete de Platão, Sócrates coloca que Eros só pode querer o que ele não tem, daí me veio que Eros esta diretamente ligado à saudade. Esta semana este foi um tema recorrente em meu coração, não só por estas filosofias e palavras a respeito dele, mas principalmente porque ele me tomou o coração de uma forma fora do comum e a primeira delas foi por causa de meu pai.

Meu Pai faleceu a vinte e três anos atrás, e esta data se fechou justamente esta semana, me deu um aperto, uma saudade, tive poucos momentos com ele, mas senti que posso sentir saudades de coisas que nem vivi, quando ele se foi eu tinha apenas três anos, e por mais que muita gente tentasse, aquele era o lugar dele e ninguém conseguiria assumi-lo, sendo assim, não senti saudades do que vivi com ele, mas sim do que poderia viver, e por causa disto muita coisa simples pra tanta gente se torna algo muito especial pra mim, disse a algumas semanas atrás que trocaria dez anos de minha vida por um dia com meu pai tamanha a saudade que tenho.

Isto me fez pensar em outra coisa, de como estava me sentindo só, comentei esta semana que tenho saudades de me apaixonar, mesmo sem nunca ter tido uma grande paixão, daquelas de tirar o fôlego tenho saudades dela, como disse antes, não pelo que alguma grande paixão já me fez, mas sim pelo que ela poderia fazer agora comigo, tenho vontade de viver uma dessas, mas também recheada de respeito, liberdade e segurança, sem posse, sem donos, só amantes apaixonados, o que me traz ao pensamento o que um amigo-mestre, o Martorelli, me falou esta semana, disse que amar assim era como criar pombos soltos, vou explicar, quando era pequeno em Jaboatão sempre saia um pouco mais sedo de casa para ver algo que adorava, no caminho da escola havia uma casa curiosa com algo que a destacava das outras casas, no quintal havia um monte de casinhas abertas empilhadas, sem grades e nelas muitos pombos, que eram criados soltos, sem gaiolas, eles voavam por ai, e podam ir a onde quisessem, mas sempre voltavam para aquele lugar, gostavam, se sentiam seguros, amados, respeitados, amar de verdade é criar pombos livres, assim Deus nos ama, com liberdade.

E ai vem ele de novo, quase todas as crônicas e textos que escrevo tenho, que tocar nele, mas fazer o que não é?! Quando penso em saudade e amor, logo ele me salta a mente, Deus, o ETERNO, tenho saudades dele também, queria que estivesse encarnado agora, mas o sinto, sinto seu amor, uma relação de criação de pombos, sou livre, mas quero estar com ele.

A saudade faz toda diferença, como diz Rubem, ela é a junção de amor + falta, sabe como, tenho em casa uma videira, meu avô me deu, e não só me deu, plantamos juntos, aos olhos de qualquer um ela é apenas uma videira, mas pra mim ela é diferente, como a pequena rosa no asteróide b-612 é para o pequeno príncipe, a minha videira é para mim, uma presença que marca uma ausência, que fala de amor, tristeza, alegrias, antropofagia, uma eucaristia, não é isto que nos ensina o nazareno, “fazei isto todas as vezes em memória de mim...”.

Bem o texto hoje foi diferente dos outros, um desabafo, mais, uma confissão, vocês? Meus confessores, e esta foi ela, tenho saudades de meu pai, tenho saudades de me apaixonar, tenho saudades de Deus, e como é bom que assim seja, pois na saudade mora a presença de uma ausência, na saudade mantenho vivo um amor, na saudade, na saudade...

Com carinho e saudades,

Clarence Santos

“Frater, Teólogus minor et Peccator”

clarence_santos@hotmail.com

À Clarence Gomes dos Santos, o homem sem o qual eu não seria nada...
Te Amo meu PAI, trocaria não dez, mas mil anos se os tivesse por um dia com Você...
Feliz Dia dos Pais!

(Escrito em 26/04/2007)