segunda-feira, 24 de março de 2008

"O ciclo do caranguejo "


A família Silva mora nos “mangues” da cidade do Recife, num “mocambo” que o chefe da família fez quando chegou de cima.


A família é originária do sertão. Desceu do Cariri, na seca, perseguida pela fome. Fez uma paradinha no brejo, para tentar o trabalho nas usinas, mas não se pôde aguentar com os salários dessa zona, sem ter direito a plantar senão cana. Sem ter, nem ao menos o recurso do xiquexique e da macambira, como no sertão, para quando a fome apertasse.


Nesse tempo espalharam pelo interior um boato que o governo tinha criado um ministério para defender os interesses do trabalhador e que com os fiscais da lei, a vida na cidade estava uma beleza, trabalhador ganhando tanto que dava para comer até matar a fome. A família Silva ouviu esta estória, acreditou piamente e resolveu descer para a cidade, para gozar das vantagens que o governo bom oferece aos pobres.


Logo de chegada a família ouviu que a coisa era outra. Não havia dúvida que a cidade era bonita, com tanto palácio e as ruas fervilhando de automóveis. Mas a vida do operário, apertada como sempre. Muita coisa pros olhos, pouca coisa pra barriga.


O caboclo Zé Luís da Silva não quis desanimar. Adaptou-se: “Quem não tem remédio, remediado está.” Entrou na luta da cidade com todas as forças de que dispunha, mas as forças dele não rendiam que desse para a família viver com casa, roupa e comida. Casa só de 80 mil réis para cima, para comida uns 150 e os salários sem passarem de 5 mil réis por dia.


Começou o arrôcho. Só havia uma maneira de desapertar: era cair no mangue. No mangue não se paga casa, come-se caranguejo e anda-se quase nu. O mangue é um paraíso. Sem o cor-de-rosa e o azul do paraíso celeste, mas com as cores negras da lama, paraíso dos caranguejos.


No mangue o terreno não é de ninguém. É da maré. Quando ela enche, se estira e se espreguiça, alaga a terra toda, mas quando ela baixa e se encolhe, deixa descobertos os calombos mais altos. Num deles, o caboclo Zé Luís levantou o seu mocambo. As paredes de varas de mangue e lama amassada. A coberta de palha, capim seco e outros materiais que o monturo fornece. Tudo de graça encontrado ali mesmo numa bruta camaradagem com a natureza. O mangue é um camaradão. Dá tudo, casa e comida: mocambo e caranguejo.


Agora, quando o caboclo sai de manhã para o trabalho, já o resto da família cai no mundo. Os meninos vão pulando do jirau, abrindo a porta e caindo no mangue. Lavam as ramelas dos olhos com a água barrenta, fazem porcaria e pipi, ali mesmo, depois enterram os braços na lama a dentro para pegar caranguejos. Com as pernas e os braços atolados na lama, a família Silva está com a vida garantida. Zé Luís vai para o trabalho sossegado, porque deixa a família dentro da própria comida, atolada na lama fervilhante de caranguejos e siris.


Os mangues do Capibaribe são o paraíso do caranguejo. Se a terra foi feita pro homem, com tudo para bem servi-lo, também o mangue foi feito especialmente pro caranguejo. Tudo aí, é, foi ou está para ser caranguejo, inclusive o homem e a lama que vive nela. A lama misturada com urina, excremento e outros resíduos que a maré traz, quando ainda não é caranguejo, vai ser. O caranguejo nasce nela, vive nela. Cresce comendo lama, engordando com as porcarias dela, fazendo com lama a carninha branca de suas patas e a geléia esverdeada de suas vísceras pegajosas. Por outro lado o povo daí vive de pegar caranguejo, chupar-lhe as patas, comer e lamber os seus cascos até que fiquem limpos como um copo. E com a sua carne feita de lama fazer a carne do seu corpo e a carne do corpo de seus filhos. São cem mil indivíduos, cem mil cidadãos feitos de carne de caranguejo. O que o organismo rejeita, volta como detrito, para a lama do mangue, para virar caranguejo outra vez.


Nesta placidez de charco, identificada, unificada no ciclo do caranguejo, a família Silva vai vivendo, com a sua vida solucionada, como uma das etapas do ciclo maravilhoso. Cada elemento da família marcha dentro desse ciclo até o fim, até o dia de sua morte. Nesse dia os vizinhos piedosos levarão aquela lama que deixou de viver, dentro dum caixão pro cemitério de Santo Amaro, onde ela seguirá as etapas do verme e da flor. Etapas demasiado poéticas, cheias duma poesia que o mangue não comportaria. Parte-se aparentemente, neste dia, o ciclo do caranguejo, mas os parentes que ficam, derramam caridosos as suas lágrimas no mangue para alimentar a lama que alimenta o ciclo do caranguejo.


Josué de Castro



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A presente crônica foi publicada pela primeira vez em 1933. Passados 72 anos, a realidade é ainda mais assustadora no Recife, muito piorada, porque as favelas e ocupações urbanas se multiplicaram nesse tempo e os caranguejos talvez não tenham mais espaço para viver.


A matéria A digna teimosia dos “severinos”, publicada em AND no 18, pag. 14, faz um retrato dessa situação e das tentativas da burguesia de esconder ou mesmo maquiar a triste realidade, seja com tapumes ou paternalismos variados. A população, entretanto, teima em aparecer e mostra todo tempo a sua face pobre, mas digna.


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Dicas de Leitura: "Geografia da Fome" - Josué de Castro.

Um dos pernambucanos mais ilustres que já nasceu nesta terra, influenciou grandes pensadores, inclusive o Grande Profeta pernambucano Chico Science, Indicado ao Nobel de Medicina e ao Nobel da Paz. Cidadão do Mundo!


"... Encontrei um Cidadão do Mundo, num maguezal na beira do rio... JOSUÈ!..." (Chico Science - Afrociberdelia)



Clarence Santos

domingo, 23 de março de 2008

"PAZ E LUTA!"


"A MANIFESTAÇÃO DA JUSTIÇA!"


"A Minha alma esta armada e apontada para cara do sossego, pois paz sem voz, não é paz, é medo!"


Assim começa a musica de uma banda carioca chamada O Rappa, e externa muito mais do que uma simples melodia, mas um sentimento coletivo que deve ser não só um sentimento, mas uma guia de atitudes, pois o que transforma a situação em insustentavel não é apenas a corrupção ou a violencia, mas alguns dos piores sentimentos que move o coração dos fracos, a indiferença e a omissão.


Contam os historiadores que um dos maiores revolucionarios de todos os tempos, Jesus de Nazaré, em um de seus discursos mais significativos diz: "Bem aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque eles serão fartos", o que nos ensina que a busca pela justiça deve ser acima de tudo uma necessidade como comer e beber, pois a paz ao contrario do que muitos pensam, não é a ausencia de violencia, e sim, acima de tudo, a manifestação da justiça.


Neste sentido, a violência, a falta de paz não é apenas um marginal armado na esquina ou uma bala perdida na cabeça da criança, mas tambem a falta de saude para o povo, a fome que aflige não só as viceras, mas o coração dos pais de familia, é não conseguir chegar na porta de sua casa, quando se tem, por causa da lama de uma rua asfaltada apenas no papel, é uma midia vendida ao interesse dos poderosos servindo como maquina de manipulação das massas, e muito mais exemplos que nos renderiam muitas e muitas folhas.


O que mais alimenta situações como estas acima citadas, não é só a corrupção ou o trafico, mas principalmente a omissão e o silencio dos oprimidos que apenas esperam, esperam e cansam.


A musica do profeta conteporâneo Marcelo Yuka diz e a historia comprova, Paz sem voz não é paz, é medo, e medo é a ultima coisa que devemos ter, pois todos os que nos oprimem, seja homem ou mulher, ricos ou pobres, negros ou brnacos, heteros ou homosexuais, são todos iguais a nós, e como camtam na musica o Planet Hemp:


"ESPEREM SENTADOS A RENDIÇÃO, NOSSA VITORIA NÃO SERÁ POR ACIDENTE!!!"




Clarence Santos

"Fratter, teologus minor et pecattor!"

quinta-feira, 20 de março de 2008

"Deus e a nova Espiritualidade!"


"A unidade das várias religiões só poderá se concretizar quando seus praticantes tornarem-se realmente conscientes de Deus dentro de si mesmos. Teremos, então, uma verdadeira fraternidade de homens sob a Paternidade de Deus."

(yogananda paramahansa).



Esta nova espiritualidade é marcada por uma nova e diferente construção do papel do divino e do humano na formação de identidade do homem.


Deus na construção atual das instituições religiosas é uma força a ser ignorada, a construção do Deus antropomorficas e antropopaticas baseados na experiencia pessoal dos sacerdotes e na dogmatica das instituições o tornou obeso demais para andar ou fazer alguma coisa pelos homens, e numa leitua mais profunda, evocamos Nietzsche e declaramos: "DEUS MORREU!" e é interessante mostrar-mos que na boca de Zaratustra, Nietzsche não declara a inexistencia de Deus, não transforma a declaração numa afirmação ateia, e sim, numa inconformidade em relação ao que transformaram o divino dentro das religiões, isto é, a maquina dos poderosos de manipulação das massas.


Maquiaram de Deus, pintaram seu rosto impedindo que os outros entendam e veja a realidade, de que Deus, YHAWEH, Jah, Alá, oxum, etc... são apenas quadros pintados de um mesmo Divino Pai/Mãe. Nosso desafio de uma espiritualidade conteporânea é tirar este sorriso de palhaço que pintaram na face do ETERNO, e depois de todo o espetaculo, conhecer a verdadeira face do DIVINO, e só assim encontrar o "nosso" Deus, pessoal e intransferivel, viveremos com nossos irmãos e irmãs e com nós mesmos a paz e a tranquilidade que excede todo entendimento e nehuma religião pode proporcionar de forma perene.




Clarence Santos

"Fratter, Teologus minor et Pecattor!"

quinta-feira, 6 de março de 2008

Outras dicas...


Lá vai outra do teatro magico, na ultima esqueci de colocar o site deles, então ai vai...





e la vai outra poesia deles...



"... DE ONTEM EM DIANTE"


De ontem em diante serei o que sou no instante agora
Onde ontem, hoje e amanhã são a mesma coisa
Sem a idéia ilusória de que o dia, a noite e a madrugada ]
[ são coisas distintas
Separadas pelo canto de um galo velho
Eu apóstolo contigo que não sabes do evangelho
Do versículo e da profecia
Quem surgiu primeiro? o antes, o outrora, a noite ou o dia?
Minha vida inteira é meu dia inteiro

Meus dilúvios imaginários ainda faço no chuveiro!
Minha mochila de lanches?
É minha marmita requentada em banho Maria!
Minha mamadeira de leite em pó
É cerveja gelada na padaria
Meu banho no tanque?
É lavar carro com mangueira

E se antes um pedaço de maçã
Hoje quero a fruta inteira
E da fruta tiro a polpa... da puta tiro a roupa
Da luta não me retiro
Me atiro do alto e que me atirem no peito
Da luta não me retiro...
Todo dia de manhã é nostalgia das besteiras que fizemos ontem




Escutem... é fantastico!podem baixar as musicas no site de graça... aproveitem!

terça-feira, 4 de março de 2008

"Eros e Thanatos"



Um dos assuntos que mais me seduzem é a mitologia, e hoje tava lendo sobre "Eros e Thanatos", da só uma lida na estoria...








O amor e a morte.


Eros e Thanatos.


Os extremos.


Conta a lenda que Eros adormeceu numa caverna, embriagado pelos auspícios de Hipno, o irmão de Thanatos. Ao sonhar e relaxar, suas flechas se espalharam pela caverna, misturando-se às flechas da morte. Ao acordar, Eros sabia quantas flechas possuía. Reunia-as, mas sem querer levou algumas pertencentes a Thanatos. Assim, os velhos se sentem embrigados pelo amor, flechados por Eros, enquanto muitos jovens sentem a morte no coração. Muitas vezes, o amor quando finda deixa uma sensação tal de vazio e solidão, que deve ser muito próximo daquilo que acreditamos ser a morte. Enquanto outras vezes é preciso que a morte se estabeleça para que o amor nasça. A passionalidade cerca os seres, todos. Não há quem nunca pensou em extremos diante de uma ameaça. Por isso mesmo, há de morrer para que renasça o amor.


Breve mais contos mitologicos...