sexta-feira, 18 de julho de 2008

“O LEIGO QUE CONHECI NO JARDIM”


É deitado em uma rede improvisada em meu quarto para ler, na boa companhia do amigo Jack Daniels que fito a janela enquanto as sedutoras e brilhantes gotas de uma garoa leve que flutuam tranqüilas no ar até encontrar o vidro e correrem por ele até encontrarem o fim...
Acompanhando esta cena meu pensamento se perde caminhando nas estantes de lembranças de minha mente até encontrar uma bem interessante, esta que passo a contar, e que certamente me trouxe, não sei se ao acaso, ou obra do destino, mudanças radicais...

“Os bosques são belos, sombrios e fundos, mas há promessas a guardar, e muitas milhas a andar antes de poder dormir...”.

É com essa frase do Robert Frost que começo a caminhada num belo jardim da Universidade Federal de Pernambuco, já com o frio do fim da noite acentuado por uma leve garoa que cai, todo um cenário bucólico, de uma beleza quase edêmica, que parecia ter acabado de aflorar (os que acompanham meus textos já conhecem minha paixão por jardins, obras mais perto da obra Divina). E é na caminhada neste cenário quase metafísico, que se da uma agradável conversa com uma amiga que tenho aprendido a admirar e ter um carinho imenso, conversas dessas sem compromisso, em que se fala sobre tudo e nada, sobre destino e acaso, medos e certezas, palavras... E no meio de tantas palavras ditas ou lida nos olhos, que uma colocação veio pousar em minha alma de forma pesada e incomum:

“Não me aproximei mais de você, por medo, medo por você ser sacerdote...” (como a maioria já sabe sou Pastor/Padre Episcopal).

Após o choque a primeira reação foi a pergunta: “Sério? É Brincadeira?”, e na seriedade de um olhar me vem a resposta, o sim. Mudei de assunto, e após as despedidas, no caminho pra casa, e nos dias seguintes aquela frase me perseguiria.
Embora pareça óbvia, só agora sinto o peso desta situação, só agora cheguei à beira e vi a profundidade do abismo que separa o clero dos laicos, o sacerdócio do povo. Como vamos cumprir a tarefa de ajudá-los nessa caminhada da vida se estamos tão longe, separados por nossas alvas, casslocks e estolas. No meio destes pensamentos lembrei-me de um outro grande amigo, o Martorelli, uma dessas almas-irmãs que a gente encontra na vida, ao fim de uma de nossas longas caminhadas na praia, paramos no shopping, entre os livros da Livraria Saraiva, e seguida de uma gargalhada gostosa, que estão predestinadas aos gordinhos, ele me diz:

-“Cara, Jesus é leigo, ele não foi, nem é do clero, é laico...”.

E do raciocínio desta frase com a de minha amiga do jardim é que me veio a respostas a muitas perguntas elaboradas a tempos em meu coração;

- por que as pessoas se sentiam tão bem perto de Jesus e nem sempre se sentem assim numa igreja?
- por que era tão fácil para uma prostituta, um sonegador, um estelionatário, um assassino, um traidor chegarem perto de Jesus e não ser assim de um sacerdote?
- por que uma pessoa comum se identifica tão bem com Jesus e não com um Pastor/Padre?


Resposta: PORQUE JESUS É LEIGO, É DO POVO!!!!
Lembrei-me do capitulo 25 do livro de Mateus, quando Jesus se identifica com o povo, e não o povo comum, e sim o oprimido, e vai alem até da identificação, chegando à imanência do Cristo. O que fazemos ao oprimido para libertá-lo de sua opressão é ao próprio Cristo que fazemos. Como clero pecamos nisso, estamos longe do povo, logo, longe do Cristo. Este pecado presente no clero desvia o processo histórico de seu rumo libertador, e deita raízes no coração do homem, alienando-o. Marx já dizia, a alienação cria o descompasso entre a nossa existência e a nossa essência. Não vivemos o que somos, e nem podemos ser o que gostaríamos de viver. Comecei a entender que antes de ser clero, padre, pastor, sacerdote, devo ser, acima de tudo povo, acima de tudo homem, homem de fé. A fé que não nos dá a radiografia do momento histórico, mas sim o sentido ultimo e absoluto da historia: o antagonismo de classe será suprimido, e todos viverão como irmãos em torno do mesmo Pai. O mais importante hoje é estar com o povo, com os oprimidos. E no fim Jesus dirá: “Tive fome e me deste de comer... tive sede e me deste de beber...”, indagaremos: “Quando foi, Senhor, que te vimos com fome?... com sede?”, e o Nazareno responderá: “O que fizeste a um desses pequeninos, foi a mim que o fizeste” (Mt 25).
Estes pensamentos foram resultados de uma conversa com uma amiga no jardim.
Daí, a beira, olhei a profundidade do abismo, afastei-me, corri e pulei, e quando penso cair uma mão segura, a mão do Cristo, do amigo leigo que me apresentaram no jardim, estava do lado laico, do povo, presente na doce voz de uma amiga...


Clarence Santos
“Frater, Teologus Minnor et Pecattor”

Um comentário:

Dáfni disse...

eita sempre cativando e me deixando refletir com essas histórias
bjos