quarta-feira, 17 de março de 2010

“FOTOGRAFIAS DO COTIDIANO”


Atravesso a catraca do terminal e de longe observo meu ônibus parado no ponto, desligado, mas já de portas abertas, enquanto ando me chama a atenção uma gargalhada aberta e sonora daquelas que só gordos alegres conseguem dar, é o motorista sentado no batente de um resto de muro conversando com o amigo cobrador enquanto fuma seu cigarro.


Chego à porta do ônibus e percebo alegre porque há poucas pessoas, e que meu lugar preferido esta vazia, o perto da porta, na janela. Vejo todos os passageiros, são estudantes, creio que deve ser época de prova ou coisa do tipo, estão todos com os cadernos abertos como que estudando, me sinto alegre, poderei ler meu livro sem interrupções.

Sento, abro a bolsa e tiro “O Carteiro e o Poeta”, livro que me acompanha estes dias, uma releitura necessária que senti nessa semana, abro na pagina marcada e absorvo aquelas palavras escritas enquanto elas me absorvem numa relação antropofágica entre eu e o autor. Não percebo sentar na cadeira atrás de mim um pai e seu filho pequeno ate que o menino dispara a falar:

- Pai, cadê o motorista?
- Não sei filho!
- Pai, cadê o motorista?
- Esta lá fora filho!
- Ele não vai entrar pai?
- Já já filho.

O menino começa a pensar enquanto olha pra cadeira vazia do motorista, ate que ele percebe um problema pra que sua viagem aconteça, e dispara de novo:

- Pai...
- Oooooii menino!!!
- Tem um problema, a porta do motorista esta fechada, como ele vai entrar?
- Entrando, toma isso vai menino e fica quieto!

Falou enquanto dava uma caixinha de achocolatado ao guri, mas este, insatisfeito continua logo depois de encaixar o canudo na caixa:

- Mas pai, como ele vai entrar, se a porta esta fechada, e ele esta do lado de fora?
- Ele tem um controle remoto meu filho
- Como o senhor sabe disso?
- Sabendo!
- Puxa pai, como você é inteligente!

O pai então da um sorriso de canto de boca, orgulhoso enquanto o filho se delicia no achocolatado silenciosamente.
Volto os olhos para o livro procurando onde tinha parado a leitura antes de ser atrapalhado pelas perguntas do estridente menino enquanto falo pra mim mesmo...

- Puxa senhor, ainda bem que o senhor é inteligente assim...



Clarence Santos

2 comentários:

Anônimo disse...

Adorei!
Bjs,
Kelli

Nilson Vellazquez disse...

O riso do cidadão é o que tem de mais absurdo nessa relação.