sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

“Nem roupas, nem lembranças...”

Ele a tinha presa a cama,
Amarrada e sem condições de saída.
Enquanto seus olhos destilavam o terror daquela situação,
Ele apenas a observava tranquilo imaginando e sonhando com o que se passaria.
Jogou um plástico por cima pra evitar a sujeira,
Tapou sua boca pra não ser incomodado com o barulho,
E lentamente começou a enterrar uma fina faca em seu coração acelerado,
E enquanto assim fazia, deixava os pingos de sangue se misturarem com as lagrimas que
Deixava cair sobre o corpo.
Quando não havia mais vida
Com ela ainda suja de sangue, cortou as coradas que a amarravam a cama
Deu o último beijo,
E a deixou sair sem nada, nem roupas, nem lembranças...
Apenas uma faca enterrada no coração e na alma

Clarence santos

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

INSPIRAÇÃO DE PROGRAMA DE TV

Ele estava sentado no sofá de sua casa, cabeça baixa, olhando pros pés enquanto os colocava na sandália. Levantou, caminhou ate a estante e pegou o maço de cigarros, foi ate a varanda, caminhando e observando, uma rede atravessava o local, e a única luz que se via eram as pequenas lâmpadas de natal. Empurrando a rede se encostou na mureta da varanda, e enquanto olhava por entre as gradas o nada estampado na parede do prédio vizinho, riscou o fósforo e acendeu um cigarro, na verdade foi um isqueiro, mas ele sempre imaginava o barulhinho que fazia o riscar do fósforo e o estourar da chama na imaginação dos leitores. Recostou sobre a mureta e se deu a pensar no nada, foi ai que se pegou olhando pros pedaços de tintas arrancados da parede a sua frente, e como faziam formas engraçadas, o submarino da musica dos Beatles, um homem e outras coisas mais.
Enquanto observava a brincadeira de sua mente se espalhar pela parede do prédio vizinho, uma frase o trouxe de volta a melancolia anterior, foi o Michel Melamed que gritava no meio de sua sala, recostado sobre uma janela:
- Todos nós estamos presos do lado de fora de um abraço...
Ficou pensando sobre aquilo sem muito entender quando o Melamed repetiu e completou:
- Todos nós estamos presos do lado de fora de um abraço, completamente condenados a liberdade!
Apagou o cigarro quase o esmagando no cinzeiro, entrou na sala quase que correndo, olhando de canto de olho o filosofo em sua janela repetindo aquela frase e imaginando o quanto existe de verdade naquelas palavras, entrou no quarto e a encontrou deitada na cama, já adormecida, o lençol cobria parte de seu corpo branco e belo, iluminado por uma fresta de luz que teimava em entrar por entre as frestas da cortina, tirou sua roupa e deitou ao seu lado, e como que por instinto, ela se virou, ainda adormecida, de olhos fechados, jogou seus braços e pernas sobre o seu corpo, deu-lhe um beijo de princesa adormecida e balbuciou por entre o beijo...
- Te amo!
Ele respondeu e a aconchegou ao seu lado, sobre seu corpo, e como em uma bela pintura ou um apoteótico final de um belo filme de amor, adormeceram abraçados.



Clarence Santos

O NASCIMENTO DA VIDA

Tudo começa com um traço, um rabisco, uma frase, uma letra, um beijo...
Mas nem todos entendem isto, sempre esperam mais,
Filhos da impressora, pensam, baixam, pesquisam, escravos do Google
Querem tudo pronto, impresso, digitalizado, tudo agora...
Gosto dos rabiscos, dos traços, das primeiras pinceladas,
Todo filho amado nasce de um beijo, dos toques,
Do suor, mais beijos, mais toques, dança, musica, ritual
Um culto a Dionísio...
A espera, a ansiedade, a dor, o parto, nascimento
Daí então a pintura no quadro,
Daí então a musica soando,
Daí então a poesia,
Daí então o filho nas mãos,
E só então a vida.


Clarence Santos