quinta-feira, 28 de novembro de 2013

Doces heresias de um Pastor no exílio... (2)

"Do PVC ao Amor"

E o garoto esperto aqui do lado de onde trabalho arrumou uma solução interessante para saciar suas necessidades completamente justificáveis. É que aqui do lado tem um pé de cajá, que quando ta na época de “dar” fica a coisa mais linda do mundo, extremamente convidativa, toda pintada de verde e amarelo. Porem guarda com ele alguns problemas a serem solucionados antes do deleite, algo como os enigmas da esfinge ou coisa parecida. Ele é alto, muito alto, não dá pra como o desejo pede, apenas estender a mão e saborear daquele delicioso fruto, é preciso algo mais, um instrumento que ajude nisso, e assim são os instrumentos, como me ensinou o poeta, pontes entre o desejo e o prazer.

Mas ele, o menino, “ligado todo” como se diz por aqui, fácil e rapidamente arranjou uma solução, com um cano de PVC “cutucava” o fruto que soltava e escorregava direto para sua mão, que por sua vez, como prestativo instrumento que é, levava a boca, e assim então, o prazer...

O cano de PVC é um instrumento. Usado para passar água, mas, na imaginação e criatividade daquela criança foi muito mais, foi usado pra saciar a vontade, mais que matar a fome, foi utilizado pra realizar seu sonho mais desejado naquela hora, era instrumento de prazer...

O corpo também é um instrumento, mãos pegam, pernas andam, boca come, se reproduz, até a bíblia me confirma isso em Genesis 1:27:

“E criou Deus o homem à sua imagem: à imagem de Deus o criou; homem e mulher os criou.
E Deus os abençoou, e Deus lhes disse: Frutificai e multiplicai-vos, e enchei a terra, e sujeitai-a... “
(Gênesis 1:27-28).

Mas também o corpo é um instrumento sagrado de realização dos desejos, dos sonhos, aliás, como falei, são assim todos os instrumentos, pontes entre sonhos e realizações, entre desejos e prazer... e no final do capítulo do mito cosmogônico Javé fala:

“E viu Deus tudo quanto tinha feito, e eis que era muito bom.” 
(Gênesis 1:31)

E no mesmo livro sagrado ele nos ensina isso, nossos corpos são também instrumentos de fruição, gozo, prazer, a mesma boca que come, clama por beijos nos Cânticos de Salomão:

“Beije-me ele com os beijos da sua boca; porque melhor é o teu amor do que o vinho.
(Cânticos 1:2)

ou até ousa mais quando diz: 

“Qual a macieira entre as árvores do bosque, tal é o meu amado entre os filhos; desejo muito a sua sombra, e debaixo dela me assento; e o seu fruto é doce ao meu paladar.” 
(Cânticos 2:3)
e ainda 

“Favos de mel manam dos teus lábios, minha esposa! Mel e leite estão debaixo da tua língua...” 
(Cânticos 4:11).

O corpo é um instrumento de deleite, prazer, assim me ensina o poema sagrado...

Mas não pensam assim os teólogos tradicionais. O corpo é um instrumento de trabalho, nada mais. O PVC deve ser usado para passar água e nada mais. O prazer é pecado. Deus é sádico e  tristeza é sinônimo de redenção.

Sou teólogo diferente, gosto dos olhos para ler poesia, gosto de meus braços para o abraço, gosto da boca para o beijo, sou criança/filho de Deus, brincando com o presente que ele me deu. Corpo é presente de Deus. Prazer é presente de Deus, porque tudo o que é belo vem de Deus, e Deus é amor, seja ele negro ou branco, casado no papel ou não, homem ou mulher, homo ou hétero.


No mesmo PVC passa água e cajá.

Clarence Santos


"Livremente inspirado no Rubem Alves e no moleque que até hoje vive pelo mosteiro de São Bento em Olinda atrás de cajás e mangas..."

segunda-feira, 8 de julho de 2013

A Borboleta jardineira...

Ela plantou uma semente no quintal,
A semente de uma linda poesia,
Mas inquieta que era, tentava ver a poesia nascer.
Olhava de uma lado, do outro, 
Revirava com o dedo a areia delicadamente 
Tentando ver se aquela bela poesia ja havia brotado...

"Nao menina jardineira, tenha calma
Deixe que o tempo cuide dela,
Deixe-a se incomodar, 
Rasgar a casca da semente
E s entao gritar flor bela,
Mostrar a beleza ao mundo na hora certa,
E so entao voc, 
Como uma linda borboleta
pousar sua vida na beleza dela...

E eu te acompanharei..."

Clarence Santos

terça-feira, 11 de junho de 2013

Do amor perdido nos 4 cantos...

Os dois estavam sentados a beira de uma calçada nos 4 cantos
o rosto de cada um deles denunciava a tristeza guardada,
e num dialogo silencioso de olhares e mãos apertadas
passaram horas, até o momento de quebrar o silencio e falar:

- depois de tudo isso você ainda acredita no amor?

Disse ela como quem procura uma resposta sem esperança,
e ele respondeu:

- no amor eu acredito, o que não mais acredito é em você...

domingo, 9 de junho de 2013

Alma...

"E ela ficava a toda hora buscando respostas,
E sem elas inquietava-se, corria, fugia, se esquivava, 
Pois queria provas, dados empíricos
para alimentar sua alma antes de um possível "sim"...

e assim ela deixava escapar uma verdade...

que a alma não se alimenta 
De fatos,
De dados,
De provas,
a alma, na verdade,
Se alimenta sim,
É de encantamentos..."

Clarence Santos

domingo, 2 de junho de 2013

17 Cartas

E depois de terem se prometido tanta coisa,
Tudo o que sobrou, 
Foi uma ultima promessa que se fez em silêncio,
De ao menos,
Antes da ultima palavra que precede o adeus,
Ler as 17 cartas que escreveu
Quando saudade ainda se lia esperança...


Clarence Santos

quarta-feira, 22 de maio de 2013

Notas de uma saudade


E sempre me pergunto do porque de escrever tanto às vezes a respeito de saudades do que não vivi, e sempre fico com a pergunta no ar... Sem uma resposta rápida ou única para isso, mas hoje, lendo o livro de poemas sagrados me veio algo que diante de sua leveza e beleza achei sensato.

O homem manso, de gestos suaves, ternos, porém seguros disse aos seus amigos enquanto estavam sentados num jantar: “Acredito que não estarei mais com vocês nos próximos encontros, mas repitam isso dessa forma que fizemos hoje, como se eu estivesse aqui, todas às vezes, para que se lembrem de mim, e tenham certeza, estarei por aqui com vocês...” e criou neste momento algo que chamamos de sacramento, quando a ausência e o amor se unem... Se escreve o nome de saudades... Saudades do que não se viveu...

Toda saudade é um sacramento, é sagrada, deve ser por isso que li por ai que saudade não é palavra para cabeça, para ciência, e sim para o corpo, alguns profetas tinha conhecimento disso, diziam:

E disse-me: Filho do homem dá de comer ao teu ventre, e enche as tuas entranhas deste rolo que eu te dou. Então o comi, e era na minha boca doce como o mel” 
(Ezequiel 3:3).

Palavra que se come, degusta, deixa todo o corpo arrepiado, meche com a gente, tem o poder de transfigurar, desenhar em qualquer rosto um sorriso...
“Isto é o meu corpo... isto é o meu sangue... comam e bebam para lembrar de mim...”, pois nem só de pão vive o homem, mas de palavra...

Pois é na palavra que a saudade ganha vida, ela nasce... Feitiçaria... E feitiçaria é isso, criar um mundo com a palavra, trazer vida com o fôlego, com a boca, com o verbo que sai, faça-se e se faz...

Algumas pessoas também chamam de fé, ou de esperança, quando se acredita no que não existe, pelo menos não ainda... “E Abraão acreditou contra a própria esperança, e assim, do que não nascia, nasceu, não só um, mas uma multidão...” (Rm 4:18).

A esperança é a saudade do que não sentiu, mas que se crê sentirá... Viverá...

A saudade da sociedade mais justa.

A saudade da paz...

A saudade do amor...

A saudade do amor paterno que nunca haverá, mas que há...

A saudade do maior abraço do mundo e do maior cheiro do mundo que nunca se deu, mas que sempre se dá perdido no olhar ao por do sol a beira do mar...

A saudade do que não se viveu na verdade, é a centelha do coração de Deus, o resultado do sopro sagrado em nossa alma.

De quem espera que tudo pode melhorar, de quem sabe que tudo pode melhorar... E luta por isso...

A saudade dos discípulos que repetem a cena todas as vezes que se reúnem e dizem... Venha a nós esse teu reino, o reino da esperança.

Clarence Santos

quarta-feira, 8 de maio de 2013

A estória de um abraço


“Ele caminhava tranquilamente pelo quintal de casa, olhando suas plantas para escolher qual a melhor hortaliça para levar a salada do almoço daquele dia. Seu filho brincava ao lado e sua mulher o esperava na cozinha para que juntos continuassem a preparação da refeição, o dia parecia tranqüilo e calmo, feliz, até o momento em que seu filho o chamou atenção para algo, havia sangue em seu braço, ele havia se cortado, mas ficou intranquilo  pois não sentiu e nem sentia nada. Lavou o sangue, fez um curativo e continuou.

Essa estória se passa num tempo antigo, onde as descobertas cientificas ainda não existiam. Percebendo que ainda não sentia nada foi até o sacerdote da comunidade, um tipo de curandeiro também da época para que ele olhasse o seu ferimento. Na hora em que viu, utilizando de seus conhecimentos, o sacerdote logo descobriu do que se tratava, era lepra, doença que começa com a insensibilidade da pele e leva a podridão do corpo e naquele mesmo momento, condenou aquele homem ao destino de todos os leprosos, o exílio e a solidão, longe de qualquer contato com a sociedade, de qualquer toque humano.

Ele voltou para casa, mas daquele momento já não podia se aproximar, olhava de longe tudo o que construiu e percebeu que naquele momento tudo desabara, de sua esposa não teria mais o toque de amor, carinho, não veria seus olhos de desejo, não sentiria mais o abraço de seu filho, sangue de seu sangue, não veria suas conquistas, não poderia mais chegar perto nos momentos de dificuldades, e apenas de longe poderia falar as palavras que naquele momento sussurrava de forma quase inaudível, “Filho amado!”.
Aquela dor era quase insuportável, e agora, as margens da cidade ele vivia, a espera do momento em que aquela doença o corroesse todo e o levasse. Debilitado, feridas indolores apodreciam seu corpo e a dor consumia sua alma.

Ouve então uma historia de que havia um homem que curava, sanava todo tipo de doença, um curandeiro que o povo reivindicava como o libertador dos oprimidos e naquele momento passava por ali por perto. Ele ponderou e viu que nada perderia mais, e resolveu ir ao seu encontro.

A multidão se espremia para ver esse homem, mas em um momento se abria, pois aquele pobre homem doente passava pelo meio, corriam e derrubavam uns aos outros quando escutavam o sino que o anunciava (pois todos os leprosos caminhavam com um sino para anunciá-los e mostrar a todos quem passava) para não correr o risco de tocar aquele homem que passavam, teriam o expulsado dali caso não tivessem que tocá-lo para fazê-lo.

Quando chegou perto, aos gritos chamou a atenção daquele a quem aclamavam como libertador, que virou e o olhou. O homem manteve uma certa distancia para não incomodar mais o chamado messias, se ajoelhou e disse: ‘se você quiser, você pode me tornar uma pessoa limpa!’.

O homem que curava, chamado de messias e libertador era Jesus, que naquele momento chegou mais perto do doente, pediu para que se levantasse, olhou em seus olhos e o abraçou, e naquele momento, ao pé do ouvido lhe disse: ‘quero que você seja limpo’, e assim aconteceu”.

Essa estória foi contada por Mateus no oitavo capitulo de seu livro, logo nos primeiros versículos, mas tomei a liberdade de escrever como a vejo. Algumas coisas me chamam a atenção nessa pequena estória, e delas, duas me saltam os olhos, a primeira a lepra, doença curiosa, cruel e silenciosa, que hoje em dia, com o avanço da ciência, já existe cura, mas me chama atenção ainda nela é como se parece com nossas doenças sociais de hoje, como hoje nosso tempo é acometido de uma insensibilidade generalizada que adormece nossos sentidos até o momento onde apodrecemos e perdemos as coisas que nos são caras sem perceber, até a morte. A segunda é a ênfase que o texto dá ao toque, no original ele diz: “e Jesus, estendendo a mão, o tocou”. No meio de toda aquela confusão, e no momento em que todos se afastavam, corriam, marginalizavam aquele homem, Jesus, o libertador, o messias e homem do momento, esquece de todos os argumentos religiosos e científicos, estende sua mão para ele e o toca, e nada me convence de que Jesus na verdade não tenha abraçado aquele homem, que depois de anos vivendo longe de qualquer toque, do amor da esposa, dos filhos, dos amigos, precisava mais se encontrar num abraço amigo do que numa pele limpa, Jesus me mostra nessa estória que não curou suas feridas, mas  sua insensibilidade, ele perdido em seus braços, podia agora sentir o toque.

Tenho cuidado para não cair nessa lepra social, mas vez ou outra me sinto nela. Doença que começa com a insensibilidade e leva a podridão, que vem com o medo, o receio, a indiferença, a incapacidade de sentir, amor, compaixão, paixão, a beleza, a leveza que a vida tem pra cada um. Somos em alguns momentos contaminados e em outros agentes contaminadores dessa doença.

É preciso de um Jesus nesses momentos de vida, mesmo que ele apareça com outros nomes de profetas ou deuses, ou que venha como amigo, amiga, irmão, irmã, que venha com o sentido, o toque, o beijo, o abraço, o olhar, o carinho, a palavra. Só o sentimento guardado no sentido quebra a insensibilidade, a lepra, cura.

Que o ETERNO me livre de adoecer assim, de perder minha capacidade de sentir, mas caso aconteça, que encontre o toque amoroso do Jesus espalhado por ai, e que no olhar e no toque eu seja curado da crueldade de uma sociedade adoecida.

Clarence Santos

segunda-feira, 6 de maio de 2013

Deus é um patrão injusto


E outro dia me olharam e me chamaram de pecador, me disseram que estava na mira de Deus, que ele era puro amor, mas também era de uma justiça implacável, e que puniria todos aqueles que pecam com o fogo eterno do inferno. Fiquei apenas observando e me lembrando de uma estória que meu irmão mais velho contou um dia, era mais ou menos assim:

“Era uma vez um homem muito rico, dono de muitas terras, e nestas terras, que na minha cabeça ficam lá pras bandas de Petrolina ele tinha uma linda, grande e fértil plantação de uva, de onde tirava para a produção de um vinho muito recomendado e apreciado no Brasil e no mundo.

Certo dia, ele preocupado com a plantação já em tempo de colheita, saiu ainda de madrugada para procurar pessoas para trabalhar na plantação e garantir que todas as uvas fossem colhidas no tempo certo. Encontrou um grupo de trabalhadores e com eles fez um ajuste diário de trabalho, pagando a cada um mil reais, os mandou para lavoura.

Algumas horas depois, andando pela praça da cidade, encontrou outro grupo de homens desocupados e lhes lançou a proposta de que fossem trabalhar pra ele na colheita, eles aceitaram e foram.

Quando continuou sua caminhada pela cidade, encontrou ainda outros grupos de homens desempregados e fez o mesmo.

Já às quatro horas da tarde, quando já voltava para casa encontrou alguns homens na rua sem ter o que fazer e perguntou: “porque vocês ficam todos os dias e o dia todo sem ter o que fazer ai pela cidade?” Ao que responderam: “Porque já procuramos trabalho por todos os lugares e não encontramos!” e ele prontamente os mandou para trabalhar na sua lavoura.

Uma hora mais tarde voltou à lavoura para fechar o dia de trabalho e fazer o pagamento. Chamou todos os trabalhadores começando pelos últimos que chegaram começou assim a fazer. Quando chegaram aqueles que haviam começado no fim do dia, ele começou a pagar o salário dando a cada um mil reais, e assim foi pagando a divida de cada um deles. Quando chegaram os que haviam chegado primeiro, eles animado imaginando que receberiam mais, tendo em vista que os que trabalharam menos receberam aquela quantia combinada com eles, mas receberam o mesmo salário, o que os deixou extremamente chateados e reclamando, pois, diferentes dos outros, eles haviam trabalhado desde cedo, ainda pegando o sol em seu momento mais castigante, e falaram contra o patrão, o chamavam de injusto.

O patrão parou, pensou um pouco a respeito e respondeu:

“Meu amigo, não fiz com você nenhuma injustiça, você não acertou comigo mil reais o dia? Pegue o acertado e vá embora; pois quero dar aos outros o mesmo que te dei. Não é direito meu fazer o que quero com o que é meu? É triste ver que na sua visão eu sou mau só porque quis ser bem. Pois então, aqui, os últimos sempre virão em primeiro lugar.” (Mateus 20 : 1 a 16)

E meu irmão terminava a estória dizendo que o reino de Deus é exatamente assim. O nome deste irmão mais velho por adoção que tenho é Jesus, e suas estórias sempre me trouxeram muito alívio ao coração.

Os interesses divinos estão longe das praticas, carmas e outras coisas semelhantes, Deus é amor, Deus é bom, e segundo o que aprendi Deus não é justo, pois justiça é fazer aos outros o que merecem, e assim não é como ele o faz, ele faz o que seu bom coração manda e por isso me aproximo mais do ETERNO, não numa relação mesquinha de troca, mas numa relação livre e de amor de um para com o outro. Deus não busca sacrifícios para abençoar ninguém, ele nunca aprovou uma moda especifica para quem crê nele, nem uma musica particular, pois diante das virtudes colocadas em alguns livros sagrados, a única coisa que aprendemos é que não existe um justo se quer n terra, e que todos nós dependemos da injustiça divina para continuar vivendo e experimentando de sua graça, qualquer coisa diferente disso é pura invenção e falácia humana, pois o que me ensina a bíblia é:

“Se é pela graça a nossa salvação, já não é resultado de obras, diferente disso, a graça deixa de ser graça. E se é por obras a nossa salvação, deixaria assim de ser resultado das obras, diferente disso, as obras deixariam de ser obras.” (Romanos 11:6)

Quero viver da graça, da injustiça divina, pois sei que não tenho condições de cumprir toda lei, ninguém tem na verdade, e segundo o que o livro sagrado nos ensina, não há condições de cumprir os ensinamentos da lei pela metade, não há como querer contextualizar uma parte da bíblia e ser literal com outra, e acredito por isso que o sábio fala lá em Eclesiastes 7:16, “Não seja demasiadamente justo”, pois “Os que procuram ser justificados pela lei, se separam de Cristo e caem da graça”.

E aos homens que nos olham com recriminação e ódio no olhar, falando de toda essa justiça divina, minha alegria é poder dizer, que no reino, sou empregado de um patrão injusto, filho de um Deus amoroso, que a despeito do que eu mereço, cuida e olha por mim e dessa graça não desejo cair.

Clarence Santos

sexta-feira, 26 de abril de 2013

Da juventude


Tem dias que me sinto mais jovem,
Que esqueço de minha barba grande
E de meus cabelos brancos,
É a saudade batendo forte e tomando forma
De um tempo antigo que achava até idiota,
Mas que hoje, diferente, penso de outra forma,
Era livre.
Livre de certezas bobas,
De vergonha,
De verdades prontas.
E de coração aberto dançava
Brincando todos os dias,
De dar murro em ponta de faca.

Clarence Santos

sábado, 20 de abril de 2013

Numa noite de quem sonha


Ele a olhava da porta do quarto, na ponta dos pés, quase sem respirar pra não ser visto, escondido deixava apenas o olho esquerdo a mostra,
Ela na sala esperava o melhor momento para viver seu sonho, enquanto isso assistia novela e comia nutella no pote,
Ele a achava linda, mesmo vestida apenas naquela camisa enorme de quem dorme, adorava aquele descaso proposital,
Ela se encantava com esse jeito dele, discreto, tímido na verdade, mas sincero. Adorava deixa-lo sem graça, vermelho por isso, e assim resolveu,
Ela se levantou e foi ao seu encontro,
Ele correu e se jogou na cama para fingir fazer outra coisa, que não a espiar,
Ela entrou no quarto dona de si, e dele também, deitou na cama, o abraçou, deu-lhe um beijo e logo deitou a cabeça em seu peito, jogando ainda sua perna sobre ele,
Ele ao final estava com um sorriso idiota no rosto enquanto a abraçava puxando pra mais perto ainda de seu corpo,
Ela escondia o sorriso num mal fingido sono...
Adormeceram,
Na esperança de ter encontrado a perfeição naquele exato momento,
E acordaram na solidão de quem descobre que tudo não passa de um sonho,
Esqueceram que perfeição não é quando tudo dá certo, mas quando se aprende a rir com o que não dá...

Clarence Santos

quinta-feira, 11 de abril de 2013

Quero ser clichê


Hoje minha poesia não tem poder,
Hoje cada palavra que escrevo é fraca,
Hoje as letras já não me servem e as notas caem da pauta...
Porque me cansei de ser autor e quero ser poesia
Porque quero ser tinta na caneta do escritor
Quero o cheiro, o toque, o abraço e o beijo
Do romance quero estar na pagina do encontro, na do cafuné e na do carinho...
Quero ser filme na cena do primeiro encontro de olhar
Na do roçar sem querer a mão caminhando, na do riso frouxo e solto,
Na do coração batendo mais forte, na da mão desenhando o rosto
Ensinando o caminho da boca... (com direito a trilha sonora e tudo)
Quero ser musica chiclete que vira tema de novela
E que gruda na mente de quem ta apaixonado...
Quero ser inspiração de autor
Magia de feiticeiro que trás amor em três dias
Boneco de Deus,
Que ganha vida numa inspiração de amor...

Clarence Santos

quinta-feira, 4 de abril de 2013

De quando a realidade vira sonho


Cansei de te dizer que não dava certo, mas você teimosa não me ouviu,
E se foi...
Eu te disse que não tava certo essa distancia,
Mas você me desdenhou,
E com a novidade de um sorriso blasé virou e se foi
Carregando não sei de onde uma esperança no peito de que tudo daria certo...
E eu fiquei só,
Só com as fotos de alguem diferente,
Diferente do alguem guardado na caixa do bolso,
Estranha ao que nos tornamos...
Na travessia inversa do que viviamos,
Onde a realidade de outrora
Se transforma e vira sonho...

Clarence Santos

sábado, 23 de março de 2013

A luz do “dia de dar nome”


E tem umas horas que isso tudo aperta um bucado...
Nesses momentos em que não se está nem esperando e de súbito você aparece,
Naquele copinho de suco esquecido ou
Na tampa da mamadeira perdida em cima da geladeira...
No biscoito esquecido no canto da cama quando a pinta da galinha te chamou a atenção ou
No cheiro gostoso que esqueceste aqui no travesseiro...
Na manchinha do tapete que desenhasse quando por ali brincava ou
No beijo que sinto todas as manhãs mesmo quando não estas...
E nestas horas que ascendo a luz do “dia de dar nome” que guardo pra lembrar
De quando chamei teu nome como um sacramento...
Sofia...

Clarence Santos

quinta-feira, 14 de março de 2013

Doces heresias de um pastor no exílio...


Meu Deus
Algumas pessoas ficam muito preocupadas com o destino de minha alma quando me vêem falar sobre Deus ou sobre religiosidade, principalmente meus antigos colegas de batina/sacerdócio e de minhas antigas comunidades, ao que respondo não se preocupem, meus/nossos pensamentos sobre Deus não fazem a menor diferença pra ele, e o pior de tudo, ele continua seu relacionamento comigo mesmo assim...

Meu Deus não dá a mínima pra isso, ele, por outro lado, a despeito disso tudo, como falou meu mano Jesus, “Faz o sol nascer sobre bons e maus...”, assim pelo menos é o meu, mas o deus de cada um tem um jeito de se apresentar, um cartão de visitas diferente, que na verdade reflete a face de seu adorador. O teólogo Feuerbach disse uma coisa poética uma vez, disse que “Se as plantas tivessem olhos, gosto e capacidade de julgar, cada planta diria que sua flor é a mais bonita”. E como diz Rubem Alves, o Deus das flores são flores, das lagartas são lagartas, dos lobos são lobos... Dize-me como é teu Deus e eu te direi que és...

Meu Deus é suave, tranqüilo, adora os prazeres que ele criou, adora dar penitencias prazerosas como passar uma tarde na praia vendo o por do sol ou se deliciar com uma suculenta manga espada, sobre inferno geralmente comenta comigo irritado que não sabe de nada, que quem inventou que cuide dele, mas que ele não tem nada a ver com isso... Disse que das repetições não é muito fã, embora me faça recitar Cecília Meirelles como uma ladainha sempre que conversamos, boa praça, alegre, adora dança e festa, sempre aparece quando sente o cheiro da fumaça de meu cachimbo, e então passamos horas e horas trocando umas idéias ao som do Poetinha e em reverencia ao mesmo sempre acompanhado de um bom JD, arrisco dizer que é um boêmio, mas sempre me nega sorrindo dizendo que esse é Jesus...

Ao que digo, não se preocupem comigo, nem com minha alma, to bem acompanhado, meu Deus é gente boa e sempre dá um jeito de cuidar de mim.

Clarence Santos
"Fratertheologus minor et peccator"

domingo, 24 de fevereiro de 2013

“Queria tê-la escrito...”


Não consegui reconhecer a escrita, quem seria o responsável por ela
Às vezes a sentia clássica,
Shakespeariana,
Romântica como a Julieta ou forte como a Elizabeth
Outras a santa desiludida como a Fátima do Renato.
Do Mário acho que não, de Amélia não vi muita coisa e nem de sua substituta
Chegava perto talvez daquela do Poetinha com
 “Qualquer coisa além de beleza, qualquer coisa de triste...
  Qualquer coisa que sente saudades... Um molejo de amor machucado...”
Mas o que de certo sentia é que era bem descrita em cada palavra,
Cada sensação,
Cada curva
Como as do Chico, mas com um algo mais,
As vezes explicito, outras escondido num olhar que mais parecia o Nelson.
Mas também tem o sorriso largo de foto de capa
Legendado com a alegria indiscreta de quem se descreve,
A perfeição de quem se escreve num perfeito romance
Protagonista de si mesmo,
Às vezes penso que ela se escreve...
E no final não descobri o autor,
Não conheci sua musa,
Só descobri o desejo, que grita dentro de mim
“Queria tê-la escrito...”


Clarence Santos


Foto: Manu Bezerra por Mari Patriota no "Projeto Provador".

terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

Minha Musa...



Ela definitivamente é minha musa,
Musa de tudo, da vida, dos sonhos, dos escritos...
Quando a tenho ao meu lado
Me inspira a vida, respiro com mais poesia
Sou a poesia que respiro...
Quando não, só respiro
Poesia
Sonho...
E escrevo
Desejo
Vivo novamente no papel...

Clarence Santos


Imagem: Erato, Muse of Poetry Artist: Edward John Poynter (mais ou menos em 1870)