quarta-feira, 8 de maio de 2013

A estória de um abraço


“Ele caminhava tranquilamente pelo quintal de casa, olhando suas plantas para escolher qual a melhor hortaliça para levar a salada do almoço daquele dia. Seu filho brincava ao lado e sua mulher o esperava na cozinha para que juntos continuassem a preparação da refeição, o dia parecia tranqüilo e calmo, feliz, até o momento em que seu filho o chamou atenção para algo, havia sangue em seu braço, ele havia se cortado, mas ficou intranquilo  pois não sentiu e nem sentia nada. Lavou o sangue, fez um curativo e continuou.

Essa estória se passa num tempo antigo, onde as descobertas cientificas ainda não existiam. Percebendo que ainda não sentia nada foi até o sacerdote da comunidade, um tipo de curandeiro também da época para que ele olhasse o seu ferimento. Na hora em que viu, utilizando de seus conhecimentos, o sacerdote logo descobriu do que se tratava, era lepra, doença que começa com a insensibilidade da pele e leva a podridão do corpo e naquele mesmo momento, condenou aquele homem ao destino de todos os leprosos, o exílio e a solidão, longe de qualquer contato com a sociedade, de qualquer toque humano.

Ele voltou para casa, mas daquele momento já não podia se aproximar, olhava de longe tudo o que construiu e percebeu que naquele momento tudo desabara, de sua esposa não teria mais o toque de amor, carinho, não veria seus olhos de desejo, não sentiria mais o abraço de seu filho, sangue de seu sangue, não veria suas conquistas, não poderia mais chegar perto nos momentos de dificuldades, e apenas de longe poderia falar as palavras que naquele momento sussurrava de forma quase inaudível, “Filho amado!”.
Aquela dor era quase insuportável, e agora, as margens da cidade ele vivia, a espera do momento em que aquela doença o corroesse todo e o levasse. Debilitado, feridas indolores apodreciam seu corpo e a dor consumia sua alma.

Ouve então uma historia de que havia um homem que curava, sanava todo tipo de doença, um curandeiro que o povo reivindicava como o libertador dos oprimidos e naquele momento passava por ali por perto. Ele ponderou e viu que nada perderia mais, e resolveu ir ao seu encontro.

A multidão se espremia para ver esse homem, mas em um momento se abria, pois aquele pobre homem doente passava pelo meio, corriam e derrubavam uns aos outros quando escutavam o sino que o anunciava (pois todos os leprosos caminhavam com um sino para anunciá-los e mostrar a todos quem passava) para não correr o risco de tocar aquele homem que passavam, teriam o expulsado dali caso não tivessem que tocá-lo para fazê-lo.

Quando chegou perto, aos gritos chamou a atenção daquele a quem aclamavam como libertador, que virou e o olhou. O homem manteve uma certa distancia para não incomodar mais o chamado messias, se ajoelhou e disse: ‘se você quiser, você pode me tornar uma pessoa limpa!’.

O homem que curava, chamado de messias e libertador era Jesus, que naquele momento chegou mais perto do doente, pediu para que se levantasse, olhou em seus olhos e o abraçou, e naquele momento, ao pé do ouvido lhe disse: ‘quero que você seja limpo’, e assim aconteceu”.

Essa estória foi contada por Mateus no oitavo capitulo de seu livro, logo nos primeiros versículos, mas tomei a liberdade de escrever como a vejo. Algumas coisas me chamam a atenção nessa pequena estória, e delas, duas me saltam os olhos, a primeira a lepra, doença curiosa, cruel e silenciosa, que hoje em dia, com o avanço da ciência, já existe cura, mas me chama atenção ainda nela é como se parece com nossas doenças sociais de hoje, como hoje nosso tempo é acometido de uma insensibilidade generalizada que adormece nossos sentidos até o momento onde apodrecemos e perdemos as coisas que nos são caras sem perceber, até a morte. A segunda é a ênfase que o texto dá ao toque, no original ele diz: “e Jesus, estendendo a mão, o tocou”. No meio de toda aquela confusão, e no momento em que todos se afastavam, corriam, marginalizavam aquele homem, Jesus, o libertador, o messias e homem do momento, esquece de todos os argumentos religiosos e científicos, estende sua mão para ele e o toca, e nada me convence de que Jesus na verdade não tenha abraçado aquele homem, que depois de anos vivendo longe de qualquer toque, do amor da esposa, dos filhos, dos amigos, precisava mais se encontrar num abraço amigo do que numa pele limpa, Jesus me mostra nessa estória que não curou suas feridas, mas  sua insensibilidade, ele perdido em seus braços, podia agora sentir o toque.

Tenho cuidado para não cair nessa lepra social, mas vez ou outra me sinto nela. Doença que começa com a insensibilidade e leva a podridão, que vem com o medo, o receio, a indiferença, a incapacidade de sentir, amor, compaixão, paixão, a beleza, a leveza que a vida tem pra cada um. Somos em alguns momentos contaminados e em outros agentes contaminadores dessa doença.

É preciso de um Jesus nesses momentos de vida, mesmo que ele apareça com outros nomes de profetas ou deuses, ou que venha como amigo, amiga, irmão, irmã, que venha com o sentido, o toque, o beijo, o abraço, o olhar, o carinho, a palavra. Só o sentimento guardado no sentido quebra a insensibilidade, a lepra, cura.

Que o ETERNO me livre de adoecer assim, de perder minha capacidade de sentir, mas caso aconteça, que encontre o toque amoroso do Jesus espalhado por ai, e que no olhar e no toque eu seja curado da crueldade de uma sociedade adoecida.

Clarence Santos

Um comentário:

Dáfni Priscila disse...

Você realmente surpreende.Sua fã.