quarta-feira, 22 de maio de 2013

Notas de uma saudade


E sempre me pergunto do porque de escrever tanto às vezes a respeito de saudades do que não vivi, e sempre fico com a pergunta no ar... Sem uma resposta rápida ou única para isso, mas hoje, lendo o livro de poemas sagrados me veio algo que diante de sua leveza e beleza achei sensato.

O homem manso, de gestos suaves, ternos, porém seguros disse aos seus amigos enquanto estavam sentados num jantar: “Acredito que não estarei mais com vocês nos próximos encontros, mas repitam isso dessa forma que fizemos hoje, como se eu estivesse aqui, todas às vezes, para que se lembrem de mim, e tenham certeza, estarei por aqui com vocês...” e criou neste momento algo que chamamos de sacramento, quando a ausência e o amor se unem... Se escreve o nome de saudades... Saudades do que não se viveu...

Toda saudade é um sacramento, é sagrada, deve ser por isso que li por ai que saudade não é palavra para cabeça, para ciência, e sim para o corpo, alguns profetas tinha conhecimento disso, diziam:

E disse-me: Filho do homem dá de comer ao teu ventre, e enche as tuas entranhas deste rolo que eu te dou. Então o comi, e era na minha boca doce como o mel” 
(Ezequiel 3:3).

Palavra que se come, degusta, deixa todo o corpo arrepiado, meche com a gente, tem o poder de transfigurar, desenhar em qualquer rosto um sorriso...
“Isto é o meu corpo... isto é o meu sangue... comam e bebam para lembrar de mim...”, pois nem só de pão vive o homem, mas de palavra...

Pois é na palavra que a saudade ganha vida, ela nasce... Feitiçaria... E feitiçaria é isso, criar um mundo com a palavra, trazer vida com o fôlego, com a boca, com o verbo que sai, faça-se e se faz...

Algumas pessoas também chamam de fé, ou de esperança, quando se acredita no que não existe, pelo menos não ainda... “E Abraão acreditou contra a própria esperança, e assim, do que não nascia, nasceu, não só um, mas uma multidão...” (Rm 4:18).

A esperança é a saudade do que não sentiu, mas que se crê sentirá... Viverá...

A saudade da sociedade mais justa.

A saudade da paz...

A saudade do amor...

A saudade do amor paterno que nunca haverá, mas que há...

A saudade do maior abraço do mundo e do maior cheiro do mundo que nunca se deu, mas que sempre se dá perdido no olhar ao por do sol a beira do mar...

A saudade do que não se viveu na verdade, é a centelha do coração de Deus, o resultado do sopro sagrado em nossa alma.

De quem espera que tudo pode melhorar, de quem sabe que tudo pode melhorar... E luta por isso...

A saudade dos discípulos que repetem a cena todas as vezes que se reúnem e dizem... Venha a nós esse teu reino, o reino da esperança.

Clarence Santos

Um comentário:

Sheyle Dias disse...

Eu li, como se você estivesse falando pra mim... Até escutei a sua voz!
Amei!